Talvez a maior e mais bela capacidade do ser humano seja a resiliência. Para mim, um ex-estudante de ciências sociais, sem emprego, depressivo e há poucos anos dos trinta é uma palavra que me enche a boca, os olhos e a alma. Desde muito tempo as coisas não tem sido fáceis. Deixar para trás as expectativas que a adolescência e o mundo criam sobre a vida adulta e realmente viver a vida adulta são quase como comparar Chocolate ao leite com biscoito de água e sal.
Entrar de fato na vida adulta, para mim, é finalmente assumir todas as responsabilidades sobre meus atos e escolhas, sobre minhas frustrações e satisfações e sobre o que faço, digo e penso! Tornar-me adulto também não significa endurecer ou amargar, esquecer a criança interior. Certa vez ouvi alguém dizer que tinha todas as idades que já tinha vivido e até alguns anos a mais. Grande verdade. Posso ser adulto e sentar no chão para brincar com minha prima de sete anos, ensiná-la o que eu sei e deixar que ela me ensine o que sabe.
Outra coisa sobre tornar-se adulto é que finalmente chega a hora de parar de se importar com a merda que as pessoas tanto falam e pensam sobre mim por aí. É hora de deixar os padrões e as expectativas culturais de fora das minhas escolhas, já que finalmente iniciarei a conta que anos a frente irei prestar comigo mesmo e com minha consciência. Ser adulto é a hora de deixar um pouco de lado o "por quê isso aconteceu comigo", "por quê eu?", "por quê não eu?". A vida tem as suas razões e o tempo das coisas não é o tempo do nosso querer. É importante também desapegar do sempre e do nunca, do odiar tantas coisas e pessoas. Inimigos e intrigas devem ficar nas memórias do colegial.
Crescer para mim então foi entrar em depressão após chegar no ultimo semestre do meu terceiro (e incompleto) curso superior, crescer foi ter coragem de desisti e traçar um novo plano, pensar no que eu realmente queria sem me preocupar com os olhos julgadores da sociedade.
Crescer para mim foi decidir voltar ao teatro. Decidi parar de ter medo e olhar para eles de frente, pensar porque eles exercem tanta força sobre mim, pensar como posso driblá-los, como posso vencê-los.
Crescer para mim foi assumir que preciso dos outros e de sua ajuda, e preciso pedir e dizer: "perdão, eu não sei de tudo" e/ou "obrigado, muito obrigado".
Crescer pra mim foi me tornar mais humano, mais sensível e deixar os sentimentos em mim fluírem sem menosprezá-los, sem me menosprezar ou até me levar a sério demais.
Crescer para mim é escrever esse texto e não ter medo que qualquer pessoa no mundo possa lê-lo, gostando ou não.
Crescer é viver, intensamente, observando-se, entendendo-se e principalmente, tendo humildade para errar e consertar erros, sejam esses de ação, julgamento, pensamento ou percepção.
Bem-vindos ao recomeço, a minha história, a minha vida.
Pedro Doria