quarta-feira, 8 de abril de 2015

Energias

Para ser do teatro é preciso vencer o corpo. Não apenas a preguiça que impera nos tempos atuais, assim como o ócio que se cria e se perde entre smartphones e redes sociais. É realmente necessário ultrapassar as barreiras dos seus corpos, impulsionar os limites a um lugar mais distante. Limites das articulações, limites dos músculos e limites da própria mente. Ficar exausto e esgotado é a palavra quando se trata de trabalho sério, de corpo, de voz, é dar tudo de si. Se for diferente, não é possível realmente ser.

O Teatro pede mais. O teatro quer mais, ele necessita da entrega, do seu suor, de cada parte da sua energia. E falando em energia, essa não se trata apenas da engrenagem que faz a máquina funcionar. A energia no teatro se iguala a essa energia que se despende entre as pessoas. O teatro é uma arte do coletivo, criações individuais a parte. E isso tem ficado bem claro na minha convivência com o coletivo. Nas últimas semanas as pessoas tem parecido exauridas, suas energias complexificadas entres tantos sentimentos, sensações e emoções. Parece que tudo virou um emaranhado de coisas obscuras. As novas amizades, os novos sujeitos de desejos, as expectativas, as frustrações, os problemas pessoais, isso tudo em um cenário de adoecimento geral das pessoas em Fortaleza. Fico me perguntando qual o melhor caminho para manter minha energia e ser uma boa presença para os meus colegas. Confesso que não sei onde está a resposta.

Entre exaustão, doenças e suor, eu não voltaria atrás.

sábado, 7 de março de 2015

O terceiro sinal

No Teatro tradicional e mais antigo existiam três sinais sonoros que informavam ao público e aos atores que o espetáculo iria começar. Sinto que o universo soou esse terceiro sinal, e agora estou novamente vivo. É uma sensação forte, intensa. Entrar na sala de aula do curso de Teatro novamente, mesmo em uma nova universidade, sentir aquele espaço, ouvir os professores, trocar energia com os colegas de curso, é mágico, é vivo.

Estar no teatro é estar vivo, repito. É ouvir sobre as dificuldades, as sutilezas, as complexidades, não só artísticas ou intelectuais, como politicas, sociais, comerciais, e ouvir uma voz dentro de você que diz: "vai ser difícil, mas é aqui que eu quero estar. Vai ser difícil, mas aqui a mágica acontece. Vai ser difícil, mas aqui eu me transformo, eu me renovo. Vai ser difícil, mas aqui eu não preciso só contar (seja escrevendo ou falando em eventos acadêmicos), aqui eu posso atuar. Aqui é difícil, mas é vivo, é vivo, é vivo."

E o que poderia ser mais vivo do que o fogo? Esse fogo que escorre através do suor do corpo.
O corpo é vivo, sentimos isso nos movimentos nas aulas de corpo, improvisação e no laboratório de interpretação.
A voz é viva, sentimos isso nos exercícios e na respiração durante a aula de voz.
O passado é vivo, vemos isso na aula de história do teatro ou de apreciação cênica.

Tudo isso, tanto fogo, em apenas duas semanas.
Só consigo sentir um alivio, por finalmente estar vivo, por não estar mais no quase, por poder ouvir o terceiro sinal e correr com força, e respirar com intensidade, e realmente querer aquilo tudo.

Pedro Doria

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Crescendo

Talvez a maior e mais bela capacidade do ser humano seja a resiliência. Para mim, um ex-estudante de ciências sociais, sem emprego, depressivo e há poucos anos dos trinta é uma palavra que me enche a boca, os olhos e a alma. Desde muito tempo as coisas não tem sido fáceis. Deixar para trás as expectativas que a adolescência e o mundo criam sobre a vida adulta e realmente viver a vida adulta são quase como comparar Chocolate ao leite com biscoito de água e sal.

Entrar de fato na vida adulta, para mim, é finalmente assumir todas as responsabilidades sobre meus atos e escolhas, sobre minhas frustrações e satisfações e sobre o que faço, digo e penso! Tornar-me adulto também não significa endurecer ou amargar, esquecer a criança interior. Certa vez ouvi alguém dizer que tinha todas as idades que já tinha vivido e até alguns anos a mais. Grande verdade. Posso ser adulto e sentar no chão para brincar com minha prima de sete anos, ensiná-la o que eu sei e deixar que ela me ensine o que sabe.
Outra coisa sobre tornar-se adulto é que finalmente chega a hora de parar de se importar com a merda que as pessoas tanto falam e pensam sobre mim por aí. É hora de deixar os padrões e as expectativas culturais de fora das minhas escolhas, já que finalmente iniciarei a conta que anos a frente irei prestar comigo mesmo e com minha consciência. Ser adulto é a hora de deixar um pouco de lado o "por quê isso aconteceu comigo", "por quê eu?", "por quê não eu?". A vida tem as suas razões e o tempo das coisas não é o tempo do nosso querer. É importante também desapegar do sempre e do nunca, do odiar tantas coisas e pessoas. Inimigos e intrigas devem ficar nas memórias do colegial.

Crescer para mim então foi entrar em depressão após chegar no ultimo semestre do meu terceiro (e incompleto) curso superior, crescer foi ter coragem de desisti e traçar um novo plano, pensar no que eu realmente queria sem me preocupar com os olhos julgadores da sociedade.
Crescer para mim foi decidir voltar ao teatro. Decidi parar de ter medo e olhar para eles de frente, pensar porque eles exercem tanta força sobre mim, pensar como posso driblá-los, como posso vencê-los.
Crescer para mim foi assumir que preciso dos outros e de sua ajuda, e preciso pedir e dizer: "perdão, eu não sei de tudo" e/ou "obrigado, muito obrigado".
Crescer pra mim foi me tornar mais humano, mais sensível e deixar os sentimentos em mim fluírem sem menosprezá-los, sem me menosprezar ou até me levar a sério demais.
Crescer para mim é escrever esse texto e não ter medo que qualquer pessoa no mundo possa lê-lo, gostando ou não.
Crescer é viver, intensamente, observando-se, entendendo-se e principalmente, tendo humildade para errar e consertar erros, sejam esses de ação, julgamento, pensamento ou percepção.

Bem-vindos ao recomeço, a minha história, a minha vida.

Pedro Doria